UMA FLOR AO LUNAR, del poeta portugués MANUEL FELICIANO

Uma fl or ao luar
Uma fl or ao luar. Que direi eu?
Dessa voz que me diz e não fala
Desse corpo sincero feito de ilha
Dessa raiz que sofre nesse canteiro
Dessa seiva que é um oceano
Desse beijo que os teus lábios não querem
Dessa bomba que nasce quando me aproximo
Que destrói esse segredo que não posso
Desse sorriso que ao tocar-lhe me assassina
Desse Deus que fi ca no limite das pétalas...
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Inverno
De Inverno
Caiem lágrimas sem rosto
Pelas árvores abaixo
E a lua cintilante é como um barco no céu
Não desiste desses rostos cansados
Que caiem como sementes na terra
Por entre o sol nutrindo as caras
Dentro do suspirar das folhas
Há um ventre de mãe que embala
Corações que batem ao ritmo do vento
E de verão
Há corações que não batem através de folhas secas
Sementes que desejam o húmus das tuas mãos
Há palavras que morrem e vivem por dentro
Por entre leitos de rios sem lágrimas
A lua - mãos em fogo - fl or desidratada
A chuva chega seca por entre os dedos
O mar morre entre meus lábios e os teus.
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Êxtase
É de noite por entre carícias e beijos
O sol é uma cama de palha
Onde as línguas se enrolam
Como animais à solta
As nuvens são uma janela baça
Que não deixam ver por fora
Por entre um fervilhar por dentro
As mãos são barcos lânguidos
Em forma do vento em proa
Pedindo entre as bocas esmola
Os lábios - pedaços de névoas
Em busca do corpo na lua
E os gritos - arco-íris em fuga
Raízes que mordem o sono dos montes!
miolo
As palavras embaladas
Atribuir sentido ao mundo que nos rodeia é uma tarefa
árdua e impossível de realizar sem perdas signifi cativas.
O aparato perceptivo de cada um de nós só pode ser
comunicado a outros através do uso da linguagem,
embora nunca de forma plenamente satisfatória. A
linguagem, além de tudo o que há nela de absolutamente
privado, é um modo necessariamente pobre de dar a
conhecer algo. Se, enquanto veículos de informação,
as palavras são uma forma de combater o silêncio e
aproximar experiências, são também, por outro lado, a
representação resignada das limitações humanas; o que
lhes vem anexado são convenções que facilitam o gesto
de entender. Se falamos numa determinada experiência,
num pássaro que voa, por exemplo, o nosso interlocutor
percebe do que falamos porque forma uma imagem de
um pássaro a voar. Embora perceba a experiência de que
falamos, só a percebe através da generalização. Tem um
conceito geral de pássaro e outro do acto de voar que usa
para atribuir sentido ao que dizemos, mas, na verdade,
está longe de conhecer o pássaro de que falamos. Assim,
as palavras são apenas tentativas falhadas de conhecer
realidades.
Partindo desta inevitabilidade, a propósito da experiência
visual de "Uma fl or ao luar", Manuel Feliciano interroga-
-se: "Que direi eu?"1 Isto é, perante uma sensação, o que
dizer? Com que palavras a eternizar? Haverá mais a fazer
do que a resignação tautológica de que "Uma fl or ao
1 Poema "Uma fl or ao luar. Que direi eu?"
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luar" é apenas "Uma fl or ao luar" ou é possível captar-
-lhe a essência e fossilizá-la dentro de nós? A poesia é as
coisas e não a descrição das coisas; como tal, só pode ser
desejada quando diluída na própria experiência sensível.
É por isso que Manuel Feliciano diz ter "medo das
palavras / que vêm como lenha a arder / e casacos com
traça / cobrir olhares de esperança", medo de "palavras
sem colo e sem útero", medo de "palavras que não
podem ser / nem comboio nem carro"2. O que está aqui
em jogo é o papel insufi ciente das palavras na poesia, as
palavras que, "sem colo e sem útero", não podem delas
fazer nascer nada; palavras que não são "nem comboio
nem carro", que não conduzem a lado nenhum; palavras
que se consomem a si mesmas, como "lenha a arder" ou
"casacos com traça".
Como diz Nietzsche, "Julgamos saber algo das próprias
coisas quando falamos de árvores, cores, neve e fl ores e, no
entanto, não dispomos senão de metáforas das coisas que
não correspondem de forma alguma às essencialidades
primordiais3. Se isto é verdade, a poesia, enquanto modo
de expressão verbal, é um esforço vão, porque não há
forma de aceder "às essencialidades primordiais", e um
poema, enquanto conjunto de palavras estéreis, é tão-só
um abandonado campo de batalha cheio de cadáveres.
Ainda assim, diz-nos Manuel Feliciano, "não há barcos
de pedra que impeçam / uma fl or a ressuscitar por entre
cadáveres"4. O acto poético consiste, pois, na verifi cação
de que, mesmo por entre palavras que não dizem nada,
2 Poema "Tenho medo de palavras"
3 NIETZSCHE, Friedrich; "O Nascimento da Tragédia e Acerca da Verdade
e da Mentira no Sentido Extramoral"; Lisboa: Relógio d'Água, 1997,
pp. 219.
4 Poema "Deste barco de pedra que me deram"
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por entre palavras que são apenas etiquetas das coisas, há
fl ores a ressuscitar; consiste na verifi cação de que, com
ou sem palavras, há "uma fl or ao luar" e que ela produz
um efeito poético.
São, portanto, as coisas em si que contêm propriedades
poéticas e não as descrições que se fazem delas: um
poema sobre "uma fl or ao luar" é a própria fl or ao luar.
Manuel Feliciano reage contra o despojo que se faz
das próprias coisas, contra um tipo de poesia artifi cial
que, em abono de uma ideia ornamental, transforma as
coisas até que elas deixem de ser elas mesmas. Por isso,
diz-nos:
Não quero varrer a casa
Onde chovem palavras através da lua
5
Só as palavras que "chovem" directamente das coisas,
que jorram da essência delas, têm valor poético e só essas
devem ser preservadas; o resto é enganos e blasfémias.
Esta reacção contra uma dicção poética que destrói o
objecto é semelhante ao projecto poético de William
Wordsworth, para quem esse tipo de poesia mais não
faz que "assassinar para dissecar"6. Para o poeta inglês, a
linguagem poética deveria ser nítida, despida de excessos
e de tudo o que não fosse natural, por só assim ser
possível representar os sentimentos de forma verdadeira.
Por isso, os seus poemas tinham um objectivo: "ilustrar
o modo pelo qual os nossos sentimentos e ideias estão
associados, num estado de excitação", "seguir os fl uxos
5 Poema "Não quero varrer a casa"
6 WORDSWORTH, William; "Th e Tables Turned"; Th e Major Works.
Oxford: Oxford U.P., 2000, pp. 130.
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e refl uxos da mente quando alvoroçada pelas grandes e
simples afeições da nossa natureza"7. O que os poemas
de Wordsworth pretendiam era, portanto, aproximar-se
o mais possível da experiência sensível ou ser mesmo a
própria experiência sensível. Fazer poesia, neste sentido,
é viver uma experiência; é ser levado pela torrente dos
"fl uxos e refl uxos da mente quando alvoroçada pelas
grandes e simples afeições da nossa natureza".
No poema "Amor", assinado por Luís Azevedo, podemos
ler que um "poema não tem mais que o som do seu
sentido"8. De acordo com este verso, a poesia é apenas
sons, talvez os "fl uxos e refl uxos da mente" de que fala
Wordsworth. E é-o porque "o poema não se escreve
com letras, / escreve-se com grãos de areia, e beijos,
pétalas e momentos / gritos e incertezas"9. As palavras
são apenas ilusões; o que é poético é a vida. Mas estas
ilusões alimentam-se da vida. No fi m de contas, "a
língua pasta no campo / na fl oresta ou na cidade"10.
Nestas circunstâncias, o espectáculo que emerge de
dentro de um poema consiste na fusão entre os
referentes (palavras) e o que é referido, entre expressão e
experiência empírica. Assim sendo, a linguagem poética
é aquela na qual as palavras não remetem para nada, no
qual sejam o seu próprio conteúdo. Fazer poesia é fazer
das palavras seres vivos, é dar-lhes um estatuto para
além do de veículos simbólicos, é fazer delas mais que
etiquetas que remetem para aquilo que etiquetam.
7 WORDSWORTH, William; "Preface to Lyrical Ballads"; Th e Major
Works. Oxford: Oxford U.P., 2000, pp. 598.
8 Poema "Amor..."
9 Poema "Amor..."
10 Poema "A língua pasta no campo"
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Se tivermos em conta o argumento de Wordsworth de
que "a Poesia é o transbordar espontâneo de sentimentos
poderosos"11, podemos então perceber por que razão
pode Manuel Feliciano dizer que "na serra do Marão
/ eu inventei o mar / no verde da rama dos pinheiros
/ molhei o corpo nas águas / e nessas pedras / deitei
o barco às ondas."12 A criação poética, enquanto
"transbordar espontâneo de sentimentos poderosos" é
inventar o que não está inventado, é a possibilidade de
contemplar o que não é possível contemplar, a serra do
Marão como uma paisagem marítima; é a possibilidade,
como Rimbaud que faz corresponder as vogais a cores,
de fundir duas experiências numa só; é fazer da descrição
de uma contemplação a própria contemplação; é fazer
das palavras mais do que palavras. Neste contexto, a
poesia ultrapassa as fronteiras da representação e passa
a ser, ela própria, representação e representado.
Da mesma maneira que "há no mar um ventre de mãe
que embala / palavras que escorrem através da chuva"13,
um poema é um embalo suave do que chove no mar e
as palavras, assim embaladas, a ilustração plausível do
movimento ondulatório da mente poética, em êxtase
perante a contemplação das emoções que dentro dela
se contorcem. Perante isto, o que dizer de "uma fl or ao
luar"? O que dizer "dessa voz que me diz e não fala /
desse corpo sincero feito de ilha / dessa raiz que sofre
nesse canteiro / dessa seiva que é um oceano / desse beijo
que os teus lábios não querem / dessa bomba que nasce
quando me aproximo / que destrói esse segredo que
11 WORDSWORTH, William; "Preface to Lyrical Ballads"; Th e Major
Works. Oxford: Oxford U.P., 2000, pp. 611.
12 Poema "Na serra do Marão"
13 Poema "É Inverno"
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não posso / desse sorriso que ao tocar-lhe me assassina /
desse Deus que fi ca no limite das pétalas"14? O que dizer
de tudo isto? A resposta mais indicada seria: nada de
relevante. Mas, ao mesmo tempo, fazer do acto de não
dizer nada de relevante a própria resposta e responder
assim com um embalo inconsequente mas decisivo.
Nuno Amado
Julho de 2008
Email:
poetic_spirit60@hotmail.com

José Luís Samper Martínez dijo
Creo que entre las cosas que nos salvarán está la poesía... y los poetas.
15 Julio 2009 | 11:06 PM