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La Coctelera

ARTE, FILOSOFÍA Y LITERATURA "COLIBRI"

La poesía vuela en alas del viento

8 Octubre 2008

PALAVRAS EM GUERRA E PEDACOS DE GENTE EN MIM, MANUEL FELICIANO Y SUS OBRAS

A Ferida e a Guerra

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

[…]

Luiza Neto Jorge[1]

O segundo livro de Manuel Feliciano assume-se como o palco de uma guerra inusitada: uma guerra entre palavras. Neste sentido, o título Palavras em Guerra, não sendo, como muitas vezes acontece, gratuito, possibilita a constituição de algumas linhas de leitura. “Possibilita”, somente, porque na verdade não há fórmulas para compreender a poesia, nem, aliás, para compreender a vida. Como o poeta nos diz, «[a] fórmula química / envenena a flor»[2].

A primeira guerra do poeta, a essencial, visa a transformação de tudo o que nos define, e é por isso absolutamente sério e precioso, em palavras. No entanto, a poesia de Manuel Feliciano mostra de um modo singular que não existe de facto uma “transformação”: a preciosidade diz-se, quando todas ‘as coisas surgem verdadeiramente enlaçadas’[3]. Um poema é, de facto, o lugar em que, por meio de um enlace (serão as palavras em guerra este enlace?), as coisas que estão no coração do homem – as «verdades que afligem o coração»[4] – se dizem. Essas verdades expõem um sobressalto – ou um desassossego, se quisermos lembrar neste prefácio o título de um dos muitos livros sonhados por Fernando Pessoa. Afinal, «[o] poema / é a terra e os homens em sobressalto […]».[5]

Mas os “homens” que aparecem em muitos poemas de Palavras em Guerra vivem num mundo que o poeta não deseja habitar: o mundo das ‘fórmulas’, onde o humano se anula porque toda possibilidade é pensada por ‘mentes robóticas’. Neste sentido, a rejeição de tudo o que pode ‘envenenar a flor’ faz-se justamente através da formulação do desejo de superar quaisquer limites desenhados no seio de uma vida sem autenticidade: «Se quiser ser chuva a bater-te na janela / […] E a pele seja rocha suave que a onda beija / E eu nasça dentro de ti e seja teu filho […]»[6]. Consiste este desejo de superação no gesto da própria invenção poética, que Manuel Feliciano descreve nos termos de uma esperança absoluta, porque é no ‘peito dos poetas’[7] que se torna possível «invent[ar] o mundo antigo com Adão e Eva aos beijos»[8].

Pode inferir-se do pensamento de Manuel Feliciano que a invenção dos poetas não se ajusta a uma existência sem valor, a uma existência em que o sagrado é substituído por uma ‘burocracia frustrada’[9]. Com efeito: não há vida quando o Domingo é o dia do supermercado[10]. Viver realmente, numa invenção de liberdade, implica «ver de olhos fechados»[11], sem o que não é possível imaginar «o interior do fruto»[12] ou traçar o «interior do ventre»[13].

Em alguns momentos, o poeta imagina-se um ser em cujo peito cabe toda a eternidade: «Porque tu habitas-me como a eternidade de todas as coisas»[14]. Deste modo, a poesia de Manuel Feliciano institui a possibilidade de um acesso, pela poesia, a um outro plano da existência, possibilidade que autoriza uma aproximação a um modo de pensar a arte dos poetas (modo essencialmente romântico) que, no caso da Literatura Portuguesa, encontra em Teixeira de Pascoaes uma expressão singular[15].

Num passo de O Homem Universal, de Pascoaes, o afecto que liga o homem e o cão é visto como a manifestação de um plano irredutível à matéria, à aparência sensível: «Mas a luz é invisível; e as cores de que ela se ornamenta, são meras aparências, como […] o meu Zaire a lamber-me as mãos, ou eu mesmo a beijar os pés de Cristo»[16]. Analogamente, o cão representa, nos poemas de Manuel Feliciano, o sinal de uma relação comprometida com o mundo, uma relação que nos compromete na exacta medida em que é a expressão do modo como decidimos habitar este mundo. Habitar verdadeiramente (religiosamente) implica a percepção de um outro nível de verdade – um nível a que nos prendemos, como a árvore à terra. E é este nível que não alcançam os «Que abandonam cães pelo caminho / Que não choram lágrimas / Por entre rostos tão puros / Que não sabem amar imagens por dentro»[17]. Talvez a palavra “ternura”, que Pascoaes define noutro lugar como uma ‘fome de poeta a devorar o mundo’[18], explique esta emoção que permite, na poesia de Palavras em Guerra, abarcar tudo – sem deixar os ‘cães amarelos do lado de fora’[19].

Noutro poema dedicado ao cão Pepey, as sucessivas comparações mostram como a ligação entre o humano e o animal exprime metonimicamente (exemplarmente) a comunhão essencial, sagrada, que existe no mundo, entre certas coisas:

Buscas-me o sol

Como a semente a terra

Como a raiz a água

Como o navio o mar

Vens-me como Jesus Cristo

Entre os pobres

[…]

Tu és a palavra que não pode ser dita

Que os homens desabitados não sabem escutar.[20]

Que a semente procure a terra é uma verdade necessária, como num belíssimo poema de Mário de Cesariny[21] é absolutamente verdadeiro que o amor seja uma forma de reviver o berço.

Surge também no palco de guerra que são os poemas de Manuel Feliciano uma mulher que não se deixa apanhar com facilidade, e quase fere de morte quem a contempla. Ora sai de uma igreja, a resplandecer de devoção («Era Domingo / Saías da igreja tão devota / Com orações ainda quentes na boca / E Deus no silêncio dos teus olhos / O teu corpo descia pela rua / Como uma pomba a atravessar […]»[22]), ora é alvo de uma perseguição, o alvo que o poeta persegue no desejo de escrever um poema que consiga dizer nitidamente a beleza. Porque, no trabalho precioso que é o enlace das palavras, a nitidez também ganha forma: «Aquilo que eu sempre quis foi tornar-te sempre mais nítida / E evitar que o bolor se entranhe na tua face!»[23].

Comentando um ensaio de Benedetto Croce sobre a linguagem, Nuno Júdice afirmou que «a poesia nasce de uma desilusão primitiva com o mundo, de que a rejeição da palavra como objecto-do-mundo é o passo decisivo»[24]. À desilusão, Manuel Feliciano poderia chamar também ferida. Afinal, no calor da savana há «um pássaro ferido / que é ferido mas voa»[25].

Ana Sofia Couto

Abril de 2008

Homens e mulheres fizeram festa

E na esplanada do corpo

Instalaram os convivas

Os melhores entre os povos de agora

E disseram amar a Deus

Por entre bocas famintas sem lágrimas

Não haviam cadeiras que chegassem para todos

E as mesas estavam fartas

E cães amarelos ficaram do lado de fora

À espera de restos

De mãos ressequidas já sem alma

Que não conseguem tocar o interior do fruto

E matar a fome de vento e sol

Numa espécie de barco acariciar a onda.

Aos Domingos

Há homens e mulheres espalhados

Por supermercados

Que não chegariam a ser

Se não comprassem em supermercados

Que apregoam a ira ou o amor

Enquanto compram e vendem perfumes

Ao cliente mais abonado

Com faces de moedas lânguidas de desejo!

A única moeda com que pagam

Se não comprarem e venderem

Jazem mortos pelas ruas

Como um bouquet cortado pelas mãos de outrem!

O que homens e mulheres desejam ser

Aos domingos nos supermercados

Um desejo esvoaçante de palavras sem corpo

Por entre prateleiras!




[1] Luiza Neto Jorge, “O Poema”, Terra Imóvel.

[2] Poema “O poema”.

[3] Poema “À mãe Rosa”.

[4] Poema “De que importa Natal”.

[5] Poema “O poema”.

[6] Poema “O poema”.

[7] Poema “As ondas do mar sacudiram”.

[8] Poema “Porque quiseste partir”.

[9] Poema “Na Guiné-Bissau ressoam tambores”.

[10] Poema “Aos Domingos”.

[11] Poema “De que importa Natal.

[12] Poema “Aos Domingos”.

[13] Poema “As árvores na montanha”.

[14] Poema “Quando a Giovanna passa sobre as ruas de Arequipa”.

[15] No início de Verbo Escuro, Teixeira de Pascoaes considera que os poetas contemplam o que é eterno. Neste sentido, a poesia aproxima-se da linguagem a descrever uma experiência mística. (Teixeira de Pascoaes, Senhora da Noite. Verbo Escuro. Lisboa, Assírio & Alvim, 1999).

[16] Teixeira de Pascoaes. O Homem Universal (Teixeira de Pascoaes. O Homem Universal e Outros Escritos: O Sentido da Vida, A Caridade, A Nossa Fome, Pró Paz. Lisboa, Assírio & Alvim, p. 9). (Zaire era o nome do cão que Pascoaes tinha.)

[17] Poema “Ao cão Zurique”.

[18] Poema Pobre Tolo. (Teixeira de Pascoaes. Cantos Indecisos. Londres. D. Carlos. Cânticos. O Pobre Tolo. Obras completas de Teixeira de Pascoaes, volume v, Lisboa, Livraria Bertrand, 1965, p. 245).

[19] Poema “Homens e mulheres fizeram festa”.

[20] Poema “Ao cão Pepey”.

[21] Mário de Cesariny. “Poema”, Pena Capital.


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