PALAVRAS EM GUERRA E PEDACOS DE GENTE EN MIM, MANUEL FELICIANO Y SUS OBRAS
A Ferida e a Guerra
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
[…]
Luiza Neto Jorge[1]
O segundo livro de Manuel Feliciano assume-se como o palco de uma guerra inusitada: uma guerra entre palavras. Neste sentido, o título Palavras em Guerra, não sendo, como muitas vezes acontece, gratuito, possibilita a constituição de algumas linhas de leitura. “Possibilita”, somente, porque na verdade não há fórmulas para compreender a poesia, nem, aliás, para compreender a vida. Como o poeta nos diz, «[a] fórmula química / envenena a flor»[2].
A primeira guerra do poeta, a essencial, visa a transformação de tudo o que nos define, e é por isso absolutamente sério e precioso,
Mas os “homens” que aparecem em muitos poemas de Palavras em Guerra vivem num mundo que o poeta não deseja habitar: o mundo das ‘fórmulas’, onde o humano se anula porque toda possibilidade é pensada por ‘mentes robóticas’. Neste sentido, a rejeição de tudo o que pode ‘envenenar a flor’ faz-se justamente através da formulação do desejo de superar quaisquer limites desenhados no seio de uma vida sem autenticidade: «Se quiser ser chuva a bater-te na janela / […] E a pele seja rocha suave que a onda beija / E eu nasça dentro de ti e seja teu filho […]»[6]. Consiste este desejo de superação no gesto da própria invenção poética, que Manuel Feliciano descreve nos termos de uma esperança absoluta, porque é no ‘peito dos poetas’[7] que se torna possível «invent[ar] o mundo antigo com Adão e Eva aos beijos»[8].
Pode inferir-se do pensamento de Manuel Feliciano que a invenção dos poetas não se ajusta a uma existência sem valor, a uma existência em que o sagrado é substituído por uma ‘burocracia frustrada’[9]. Com efeito: não há vida quando o Domingo é o dia do supermercado[10]. Viver realmente, numa invenção de liberdade, implica «ver de olhos fechados»[11], sem o que não é possível imaginar «o interior do fruto»[12] ou traçar o «interior do ventre»[13].
Em alguns momentos, o poeta imagina-se um ser em cujo peito cabe toda a eternidade: «Porque tu habitas-me como a eternidade de todas as coisas»[14]. Deste modo, a poesia de Manuel Feliciano institui a possibilidade de um acesso, pela poesia, a um outro plano da existência, possibilidade que autoriza uma aproximação a um modo de pensar a arte dos poetas (modo essencialmente romântico) que, no caso da Literatura Portuguesa, encontra em Teixeira de Pascoaes uma expressão singular[15].
Num passo de O Homem Universal, de Pascoaes, o afecto que liga o homem e o cão é visto como a manifestação de um plano irredutível à matéria, à aparência sensível: «Mas a luz é invisível; e as cores de que ela se ornamenta, são meras aparências, como […] o meu Zaire a lamber-me as mãos, ou eu mesmo a beijar os pés de Cristo»[16]. Analogamente, o cão representa, nos poemas de Manuel Feliciano, o sinal de uma relação comprometida com o mundo, uma relação que nos compromete na exacta medida em que é a expressão do modo como decidimos habitar este mundo. Habitar verdadeiramente (religiosamente) implica a percepção de um outro nível de verdade – um nível a que nos prendemos, como a árvore à terra. E é este nível que não alcançam os «Que abandonam cães pelo caminho / Que não choram lágrimas / Por entre rostos tão puros / Que não sabem amar imagens por dentro»[17]. Talvez a palavra “ternura”, que Pascoaes define noutro lugar como uma ‘fome de poeta a devorar o mundo’[18], explique esta emoção que permite, na poesia de Palavras em Guerra, abarcar tudo – sem deixar os ‘cães amarelos do lado de fora’[19].
Noutro poema dedicado ao cão Pepey, as sucessivas comparações mostram como a ligação entre o humano e o animal exprime metonimicamente (exemplarmente) a comunhão essencial, sagrada, que existe no mundo, entre certas coisas:
Buscas-me o sol
Como a semente a terra
Como a raiz a água
Como o navio o mar
Vens-me como Jesus Cristo
Entre os pobres
[…]
Tu és a palavra que não pode ser dita
Que os homens desabitados não sabem escutar.[20]
Que a semente procure a terra é uma verdade necessária, como num belíssimo poema de Mário de Cesariny[21] é absolutamente verdadeiro que o amor seja uma forma de reviver o berço.
Surge também no palco de guerra que são os poemas de Manuel Feliciano uma mulher que não se deixa apanhar com facilidade, e quase fere de morte quem a contempla. Ora sai de uma igreja, a resplandecer de devoção («Era Domingo / Saías da igreja tão devota / Com orações ainda quentes na boca / E Deus no silêncio dos teus olhos / O teu corpo descia pela rua / Como uma pomba a atravessar […]»[22]), ora é alvo de uma perseguição, o alvo que o poeta persegue no desejo de escrever um poema que consiga dizer nitidamente a beleza. Porque, no trabalho precioso que é o enlace das palavras, a nitidez também ganha forma: «Aquilo que eu sempre quis foi tornar-te sempre mais nítida / E evitar que o bolor se entranhe na tua face!»[23].
Comentando um ensaio de Benedetto Croce sobre a linguagem, Nuno Júdice afirmou que «a poesia nasce de uma desilusão primitiva com o mundo, de que a rejeição da palavra como objecto-do-mundo é o passo decisivo»[24]. À desilusão, Manuel Feliciano poderia chamar também ferida. Afinal, no calor da savana há «um pássaro ferido / que é ferido mas voa»[25].
Ana Sofia Couto
Abril de 2008
Homens e mulheres fizeram festa
E na esplanada do corpo
Instalaram os convivas
Os melhores entre os povos de agora
E disseram amar a Deus
Por entre bocas famintas sem lágrimas
Não haviam cadeiras que chegassem para todos
E as mesas estavam fartas
E cães amarelos ficaram do lado de fora
À espera de restos
De mãos ressequidas já sem alma
Que não conseguem tocar o interior do fruto
E matar a fome de vento e sol
Numa espécie de barco acariciar a onda.
Aos Domingos
Há homens e mulheres espalhados
Por supermercados
Que não chegariam a ser
Se não comprassem em supermercados
Que apregoam a ira ou o amor
Enquanto compram e vendem perfumes
Ao cliente mais abonado
Com faces de moedas lânguidas de desejo!
A única moeda com que pagam
Se não comprarem e venderem
Jazem mortos pelas ruas
Como um bouquet cortado pelas mãos de outrem!
O que homens e mulheres desejam ser
Aos domingos nos supermercados
Um desejo esvoaçante de palavras sem corpo
Por entre prateleiras!
[1] Luiza Neto Jorge, “O Poema”, Terra Imóvel.
[2] Poema “O poema”.
[3] Poema “À mãe Rosa”.
[4] Poema “De que importa Natal”.
[5] Poema “O poema”.
[6] Poema “O poema”.
[7] Poema “As ondas do mar sacudiram”.
[8] Poema “Porque quiseste partir”.
[9] Poema “Na Guiné-Bissau ressoam tambores”.
[10] Poema “Aos Domingos”.
[11] Poema “De que importa Natal.
[12] Poema “Aos Domingos”.
[13] Poema “As árvores na montanha”.
[14] Poema “Quando a Giovanna passa sobre as ruas de Arequipa”.
[15] No início de Verbo Escuro, Teixeira de Pascoaes considera que os poetas contemplam o que é eterno. Neste sentido, a poesia aproxima-se da linguagem a descrever uma experiência mística. (Teixeira de Pascoaes, Senhora da Noite. Verbo Escuro. Lisboa, Assírio & Alvim, 1999).
[16] Teixeira de Pascoaes. O Homem Universal (Teixeira de Pascoaes. O Homem Universal e Outros Escritos: O Sentido da Vida, A Caridade, A Nossa Fome, Pró Paz. Lisboa, Assírio & Alvim, p. 9). (Zaire era o nome do cão que Pascoaes tinha.)
[17] Poema “Ao cão Zurique”.
[18] Poema Pobre Tolo. (Teixeira de Pascoaes. Cantos Indecisos. Londres. D. Carlos. Cânticos. O Pobre Tolo. Obras completas de Teixeira de Pascoaes, volume v, Lisboa, Livraria Bertrand, 1965, p. 245).
[19] Poema “Homens e mulheres fizeram festa”.
[20] Poema “Ao cão Pepey”.
[21] Mário de Cesariny. “Poema”, Pena Capital.
